sábado, 28 de novembro de 2015

Noções de América e a Obra: Joana de Ângelis, A Mentora das Américas



Olá galerinha do bem e do mal, como estão?


      “José Olívio Paranhos Lima (Catu, 2 de setembro de 1955) é um cordelista brasileiro. Filho de Olívio Pereira Lima (Oliveira) e Amélia Paranhos Lima (Iaiá),  criado, porém, por Gedalva Ramalho Madureira (Dai), escritor, ativista ecológico e autor de obras em Literatura de Cordel brasileiro. Aos seis anos, mudou-se para Alagoinhas. É membro da Ordem Brasileira dos Poetas de Cordel. Autor de vários livros de poesia, José Olívio é licenciado em Letras pela UNEB, professor radicado em Alagoinhas, no Estado da Bahia. Durante a elaboração da Constituição brasileira de 1987, o poeta deflagrou um movimento Circuito Nacional de Preservação da Amazônia, que antecedeu, no país, a criação das entidades ecológicas. Espírita, dedicou algumas de suas obras à divulgação da fé que abraçou.”                                         
       Apresentado, ligeiramente o autor, resta apresentar a personagem central do cordel de Paranhos. Joanna de Ângelis é famosa no meio espírita, por ser considerada a mentora espiritual do médium baiano Divaldo Franco. Franco é, nada menos, que o maior expoente no movimento espírita brasileiro e, quiçá, internacional, uma vez que o Brasil figura como o principal país espírita contemporâneo, tanto em termos quantitativos como qualitativos. Não por acaso, um dos cordéis de Paranhos é dedicado, especialmente ao médium: Divaldo Franco, O Baiano que virou Cidadão do Mundo
       O mentor ou guia espiritual possui uma função análoga ao do anjo da guarda católico, sendo que, em casos de mediunidade aflorada, essa função extrapola aquela interlocução muda e aparentemente unilateral, baseada na crença do invisível para configurar-se uma experiência audível, visível ou, até mesmo, tangível. Ou seja, do ponto de vista do médium, seria uma experiência tão real quanto qualquer outra e, por isso mesmo, sua interlocutora, Joanna, longe de ser um fruto de algum distúrbio mental, figuraria como uma entidade tão viva quanto real. Paranhos escreve a partir dessa perspectiva.
      Segundo Divaldo Franco, Joanna de Ângelis teria encarnado ao menos quatro vezes na Terra. Na primeira “descida” teria sido Joana de Cusa, uma das mulheres do evangelho canônico. Seria esposa de Cusa, o procurador de Herodes e tornou-se uma das principais discípulas de Jesus, segundo o livro Boa Nova, psicografado por Francisco Xavier.
      Numa segunda encarnação, teria sido uma seguidora de São Francisco de Assis, cuja missão era a renovação de uma Igreja desvirtuada. Encarnanda pela terceira vez, ela ressurge em Nova Espanha (atual México), séc. XVII, como Juana Inês de La Cruz. Esta, talvez seja sua mais importante encarnação. Inês de La Cruz é uma famosa personagem histórica do México, devido às suas vigorosas obras de poesia e dramaturgia. Foi uma criança prodígio e autodidata, aprendendo espanhol, português, nahuátl e latim, num curto período de tempo. Intentou ingressar na Universidade, vestida de homem, por  ser essa instituição de ensino restrita aos homens, mas terminou por saciar sua sede de saber na ordem das Carmelitas e, posteriormente, na ordem das Jerônimas. Foi uma monja das bibliotecas, erudita, aficionada por livros e defensora da liberdade da mulher, sendo considerada a primeira feminista da América. 
     O primeiro detalhe que chama atenção no cordel é o próprio título. Joana de Ângelis é alçada à condição de mentora das Américas. A América aparece no plural, demonstrando uma noção de desmembramento desse continente, por parte do autor. Na perspectiva de Paranhos, existe mais de uma América, fato que pode ser justificado das mais diversas formas e sob variados referenciais. Ainda assim, Joana aparece como um fator de coesão, supondo a ideia de vários em um. Esse argumento é corroborado pelos versos que qualificam Joana como “a primeira americana a defender a mulher”. Nesse caso, não há especificação de América Latina, do Norte ou do Sul. Ela é vista como uma personalidade americana, não restrita aos EUA, mas referente ao Continente assim nomeado, em homenagem a Américo Vespúcio.
      A região que hoje corresponde ao Estado mexicano aparece nos versos de Paranhos associada à doença, à fome (pobreza) e à ignorância: “Onde havia muito doente \ E povo passando fome \ Era rude aquela gente.” Isso contrasta com a posição privilegiada da personagem, que chegou a frequentar a corte como dama de companhia da vice-rainha, a Marquesa de Mancera. Além de conviver com uma nobreza local abastada, Juana contrastava pelos seus destacados dotes intelectuais, dotes esses que tornaram possível os contatos com a corte e lhe granjearam a amizade de mulheres da nobreza. Ela surge como um farol, em meio a uma terra sofrida.
     Se, por um lado, a Nova Espanha parece um lugar desolador, Juana Inês encarna com brilhantismo um projeto de redenção e libertação das Américas. Uma personagem heroica, destacada pela sua erudição que, mesmo vivendo em meios elitistas e conservadores, foi capaz de questionar o status quo, submetendo-se, deliberadamente, às disciplinas rigorosas das ordens religiosas, fora do conforto da corte. Uma submissão que tinha como pano de fundo seu desejo ardente pelo conhecimento, vetado pelas Universidades da época. Ironicamente, nessa terra de fome e doença, a heroína de Paranhos morre, vítima de uma epidemia, e, mesmo próxima da morte, conseguiu socorrer várias irmãs.
            O cordel, o qual descreve três encarnações de Joanna de Ângelis, equipara Brasil e México como países americanos, pertencentes à mesma América. Fato interessante, se nos lembrarmos da maneira apartada como muitos brasileiros pensam o Brasil em referência à América Latina. No meio espírita, o Brasil é visto como a pátria do evangelho, aquele responsável por encabeçar uma revolução espiritual no planeta. E, apesar de o autor pensar em Américas, incluindo todo o Continente, as encarnações citadas ocorreram em dois dos principais países latino-americanos: México e Brasil. Não menos importante, o trabalho de Joanna, enquanto espírito desencarnado, voltou-se mais uma vez para o Brasil, auxiliando Divaldo Franco. Se, no cenário político mundano, a América Latina não assume um papel de protagonista global, ao menos para o cordelista José Olívio e muitos espíritas e umbandistas, essa região do globo possui uma relevância inolvidável.   

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Pegue-me se puder



Obs: Este texto é apenas um ensaio de resenha


História do Brasil Nação:1808-2010; Abertura para o Mundo 1889-1930; População e Sociedade (Schwarcz, Lilia, pg 35-83; Ed Objetiva e Fundación Mapfre, 2012)


     Entre 1889 e 1930, os trilhos da civilização assentavam-se nas regiões mais dinâmicas do Brasil. Os tempos urgiam e a locomotiva progressista ansiava passar. Os obstáculos precisavam ser removidos ou mesmo atropelados. Enveredando-se por esses trilhos nervosos, Lilia Schwarcz inicia o primeiro capítulo de História do Brasil Nação, volume 3, A Abertura para o Mundo. Ela se propõe a traçar um rico panorama da sociedade brasileira, a partir desse recorte temporal, valendo-se tanto de estudos bibliográficos como de fontes primárias.
      “Lilia Katri Moritz Schwarcz (São Paulo, 1957) é uma historiadora e antropóloga brasileira. É doutora em antropologia social pela Universidade de São Paulo e, atualmente, professora titular da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas[2] na mesma universidade. É autora de importantes obras como "Raça e diversidade" e "As Barbas do Imperador - Dom Pedro II, um monarca nos trópicos".[3] Também é fundadora da editora Companhia das Letras.  (https://pt.wikipedia.org/wiki/Lilia_Moritz_Schwarcz). ”
       O capítulo População e Sociedade está estruturado em sete subcapítulos, cada um enfocando um aspecto distinto da realidade social e seus variados atores, numa tentativa de ampla abrangência.
       Numa Babel de Povos Culturas e Cores, Lilia, logo nesse primeiro subtítulo, faz alusão à bíblica Torre de Babel, a fim de ilustrar o acentuado fenômeno imigratório que marcou o período e seus inerentes conflitos culturais, os quais se espalharam pelo país, mas concentraram-se, principalmente, na região sudeste, com destaque especial para a zona cafeeira de São Paulo. Segundo ela, os conflitos decorrem de múltiplos fatores desde as diversas línguas, permeando dicotomias tão geográficas quanto sócio-políticas (campo\cidade) até as expectativas frustradas dos imigrantes diante da precária realidade, em face das propagandas enganosas, capitaneadas, destacadamente, pelo governo paulista junto aos cafeicultores.
       “O Brasil Civiliza-se”: Urbanização e Crescimento: a partir desse segundo momento, a desenvolta autora percorre o caminho das muitas inovações tecno-científicas que ebuliam entre o final do séc. XIX e o início do séc. XX: telégrafo, locomotivas, navios a vapor, luz elétrica, descobertas da medicina, dentre outras. Inovações capazes de transformar profundamente realidades concretas e revolucionar hábitos cotidianos, nas palavras dela. Ainda assim, o alcance desse progresso é questionado do mesmo modo como o discurso que acompanhava cada descoberta, cada invenção. O discurso da civilização, do progresso inexorável, as hierarquizações sociais, as dicotomias, as inclusões excludentes e tudo mais.
            O foco desse subcapítulo é a trajetória das três cidades que compuseram o eixo econômico do sudeste: Rio de Janeiro, Belo Horizonte e São Paulo. Uma capital reinventada, mimetizando a luminosa Paris; outra capital de Estado planejada e criada a partir do nada; e, finalmente, a locomotiva inchada que se via como a encarnação do progresso, aquela que arrastava atrás de si as regiões “atrasadas” do país. Apesar das peculiaridades de cada uma, todas elas estavam investidas do espírito do seu tempo, um tempo clamante por modernidade. Na contra-face desse espelho, um sertão rústico debatia-se desesperado por atenção.
         Movimentos Sociais: Sertanejos, Indígenas e Operários entre a Inclusão e a Exclusão - observando o outro lado da moeda, Schwarcz empreendeu uma visita aos sertões bravios da Primeira República brasileira. Sertões estranhos, por vezes, incompreensíveis. O empreendimento foi auxiliado pela pena aguda de Euclides da Cunha, autor consagrado de Os Sertões, testemunha ocular daquilo que ele denominou “massacre de Canudos”.
         Canudos representou a luta emblemática entre a República e os sertões, símbolos, respectivamente, de modernidade e atraso; cosmopolitismo e isolamento; o lado escuro da Lua, chamada Brasil; os variados projetos de república e de nação, com seus critérios de inclusão e exclusão. A autora explora também as revoltas do Contestado, ocorrida numa região entre o Paraná e Santa Catarina, além da revolta de Juazeiro, encabeçada pelo Padre Cícero, um líder daquilo que ela chamou de catolicismo rústico. Cada um desses movimentos, guardadas suas idiossincrasias, inserem-se num contexto de profunda pobreza e invisibilização social, alicerçada nas políticas excludentes da jovem República. Cada um, a seu modo, se utilizou de seu arcabouço religioso, a fim de mobilizar as massas e procurar soluções para seus problemas, sendo duramente reprimidos pela pátria madrasta.
           Não menos importantes foram as mobilizações grevistas pinceladas por Schwarcz. A ascensão do movimento anarquista, destacadamente da vertente anarcosindicalista, foi capaz de liderar inúmeras greves nas urbes em processo embrionário de industrialização. Os trabalhadores da nascente indústria brasileira, majoritariamente imigrantes, não obstante os muitos obstáculos culturais e linguísticos oriundos de sua heterogeneidade, foram capazes de se organizar, com suficiente coesão, para a defesa de pautas comuns.
          Depois de 1888: Populações Negras após a Abolição: Parafraseando o príncipe de Falconeri, na obra O Leopardo de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, declaro: Para que a exclusão permaneça igual, é preciso que tudo mude, é preciso o fim da escravidão. Para que um grupo social restrito permaneça no poder, é preciso que todo o regime mude. Provavelmente, Lilia assinaria embaixo, frisando as muitas permanências no período pós-abolição e pós-proclamação da República. Os negros constituíram uma grande massa de excluídos. Muitos vagaram como nômades ou seminômades nos sertões, devido ao medo de reescravização e a falta de noção de propriedade, propiciada pelos séculos de cativeiro, argumentos pertinentes evocados pela autora. As poucas famílias negras que ascenderam na esteira da escravidão entraram em declínio, igualadas aos recém-libertos. Por outro lado, os negros libertos corriam para as lojas de sapatos a fim de serem portadores daquilo que, para eles, simbolizava liberdade.
            Marginalizados de todo aquele banho civilizacional que tomava as principais cidades brasileiras, os negros passaram a viver em periferias, expulsos dos centros, socialmente higienizados. Dos cortiços às favelas, tudo muda, permanecendo o mesmo. Mas assim como não podemos olvidar as permanências, não podemos subestimar as mudanças: todo o rearranjo político-econômico além das inovações tecno-científicas. Se, por um lado, alguns autores consideram o alargamento da participação política na Primeira República insignificante, outros veem um fenômeno significativo. Brechas foram abertas e os negros organizaram-se para continuar a pleitear suas demandas históricas.
        Um Brasil Imigrante: Saberes, Odores e Hábitos Cruzados: Esse subtítulo é marcado pela História da Vida Privada, pela História Cultural. A imigração trouxe para o Brasil variadas nacionalidades, além de grupos distintos dentro de cada nação de origem. Tudo isso provocou inúmeros choques culturais e mal-entendidos, os quais já aconteciam, no interior desconfortável dos navios transatlânticos: uma maioria de italianos, espanhóis e portugueses, mesclada a alemães, japoneses, poloneses e outros.
          Os hábitos cotidianos,  como tomar banho e cozinhar, poderiam transformar-se em sérios problemas de vizinhança. Lilia ressalta o sentimento de superioridade que acompanhava esses imigrantes, em relação aos nacionais. Ainda assim, eles precisavam dos brasileiros para se adaptarem às novas condições de vida. A dura situação encontrada no Brasil, compartilhada por todos esses imigrantes e já conhecida das camadas pobres nacionais, foi a liga que permitiu a mobilização desses grupos sociais e a relativa sublimação desses conflitos iniciais.
           Indígenas e Ameríndios: Os Bárbaros (ainda) entre Nós: os indígenas, talvez, constituíam o que havia de mais dramático, no cenário nacional. Massacrados secularmente, esses povos não escaparam da mira dessa jovem República. A mesma República que exaltava essas populações originárias, em prosa romântica, era a República que, tal qual uma locomotiva “desgovernada”, intentava atropelar os obstáculos do seu progresso. A “primitiva” e resistente muralha caiaguangue  caia diante da feroz modernidade. Esse foi o símbolo de uma política de extermínio, empreendida pelo Estado e endossada por certos intelectuais. Duas vertentes ideológicas disputaram entre a aculturação ou o extermínio, sem nenhuma chance de pensar a autonomia ou os direitos indígenas, ao menos nesse primeiro momento.
             Profissionais Liberais e Operários na Terra do Favor: nas derradeiras páginas, Schwarcz apresenta o processo de diversificação e crescimento das camadas médias urbanas, bem como do número crescente de operários. Isso, em meio a uma terra do favor, ou seja, uma terra de hábitos clientelistas, paternalistas, coronelistas. Aquilo que se convencionou chamar de República oligárquica, uma República com cidadania restrita. Ainda assim, esses grupos emergentes, cada vez mais desligados das paternais raízes agrárias, passaram a ter suas próprias demandas, lutando por elas, driblando, na medida do possível, as limitações do sistema. Um sistema que, gradualmente, tomava novas feições, à sua revelia. 
           População e Sociedade: um capítulo que, sem dúvida, vale a pena ser lido e pode figurar nas leituras acadêmicas das disciplinas que abordem o Brasil da Primeira República. Lilia Schwarcz mostra-se uma autora experiente, com uma narrativa clara e coesa. A proposta de uma abordagem panorâmica parece bem sucedida, à medida que nos estimula a aprofundar as inúmeras questões tratadas, sem, no entanto, deixar de oferecer uma noção significativa sobre elas. A autora privilegia a História Social e isso fica nítido na bibliografia, onde constam quatro referências à História da Vida Privada, além de outras obras que iluminam esse viés. Além disso, ela vale-se de dados estatísticos do IBGE para embasar seus argumentos e de fontes primárias, como a obra Os Sertões de Euclides, charges da época e fotos.
               O Brasil queria fazer parte do seleto “clube dos civilizados” e tinha pressa. Schwarcz deixa claro esse processo de diversificação, crescimento, aceleração e por que não dizer, atropelamento. Um Brasil que, na ânsia de parecer novo, esquece deliberadamente velhos e graves problemas, resignifica-os, atropela-os. Um Brasil que parece aderir, antes, a um projeto de vitrine para o mundo do que  a um de  efetiva transformação. Mas o mundo dá volta camará e, assim, ela finaliza seu texto. A mudança para o bem ou para o mal, para a continuidade ou descontinuidade, talvez, seja a única certeza da História. O Brasil queria mudar de estação e rugia aos brasileiros: peguem-me se puderem!

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Intervencionismo norte-americano na América Latina



Ola galerinha independente, ingerente, autônoma e enxerida...

     As independências políticas latino-americanas não se traduziram em independência econômica. As dependências econômicas, aliadas às contradições internas de cada país, deram margem às diversas ingerências europeias e estadunidenses. Isso ocorreu em meio à corrida imperialista das potências do séc. XIX, que acreditavam na necessidade de expandir suas respectivas áreas de influência, a fim de garantirem posições relevantes no cenário internacional.
   Robert Smith analisa as variadas fases referentes à política exterior dos EUA, traçando, implicitamente, uma linha ascendente do intervencionismo norte-americano em termos quantitativos e de intensidade.
      A ilha de Cuba parece ser o caso mais notório. A ideia de um espaço vital para os interesses norte-americanos foi sedimentada, gradualmente, no seio e nas adjacências do governo. Os temores em relação aos imperialistas europeus, que colocariam em risco a segurança estadunidense, com ênfase nos alemães, os quais ampliavam sua ingerência político-econômico-militar na América Latina, criavam pressões internas e externas para os EUA assumirem um papel intervencionista. Assim, a força crescente dessas ideias se materializou numa intervenção ostensiva e duradoura na ilha cubana. Sob o discurso de proteger a República caribenha recém-formada, foi instituído um governo militar controlado por Washington. Uma parte significativa dos engenhos de açúcar também estava nas mãos norte-americanas. Desse modo, foi criada uma espécie de Estado tutelado, fato institucionalizado pela Emenda Platt, e que teria desdobramentos nas ações subsequentes do governo americano em toda Latino-América.
     O documentário de Oliver Stone aborda a virada política latino-americana mais à esquerda, a partir da segunda metade do séc. XX, fenômeno que teria se iniciado com a Revolução Cubana e teria se expandido por todo o Continente. No bojo dessas tendências esquerdistas, estava a busca de afirmação identitária, a luta contra o imperialismo, a partir de uma integração latino-americana, que fizesse frente aos todo poderosos EUA. A ascensão desses governos à esquerda demonstraria uma forte reação às políticas externas, adotadas pelas potências mundiais, por décadas a fio. Uma crescente insatisfação das camadas populares de cada país associada a sua também crescente capacidade de organização política e mobilização ajudam a compreender esse quadro.

      Hoje, toda essa onda latino-americana reverbera no centro do Império: Estados Unidos. E mesmo todo o poder midiático não foi capaz de impedir essa intervenção de ideias, traduzidas em ações concretas dos países Latino-Americanos, no seio daquela nação que se achou com direito de tomar, somente para si, o nome América.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Preconceito, preconceito meu, existe alguém mais preconceituoso do que... eu¿




     Falar de preconceito virou moda. Falar, na verdade, contra o preconceito, bradar o mais alto possível, a fim de eliminá-lo de uma vez da face sofrida da Terra! Todos se acautelam de se dizerem preconceituosos: preconceituoso eu¿ Jamais! Existe o policiamento vocabular, o império do politicamente correto, a polidez, o verniz da civilização! Aquele brilho cínico estampado em sorrisos educados; aquela atmosfera morna que percorre os salões das mais requintadas festas, das conferências, dos congressos. Preconceituoso você¿ A não ser que encarne o Deus onisciente...Sim, sim, sim!
     Segundo o dicionário Houaiss, preconceito é: “1 qualquer opinião ou sentimento concebido sem exame crítico 1.1 ideia, opinião ou  sentimento desfavorável formado sem conhecimento abalizado, ponderação ou razão 2 sentimento hostil, assumido em consequência da generalização apressada de uma experiência pessoal ou imposta pelo meio; intolerância (...)”.
      Ora, a ignorância é a essência própria do preconceito, é sua razão de ser tal como é. Fala-se muito em tipos específicos de preconceito: contra negros, mulheres, pobres, LGBTS e religiosos. Porém, esquecem a diversidade de preconceitos que abarcam ou podem abarcar tudo e todos, cada grão daquilo chamado realidade. Desse modo, ouso complementar o Houaiss, sinalizando que nem todo preconceito encarna uma negativação, contudo seu cerne encontra-se na invariável distorção apresentada por ele.
      Cada vez que nos deparamos com um novo objeto, um novo evento, um novo dado da realidade, nos apressamos em decodificá-lo da melhor maneira possível, utilizando nossos referenciais do passado e todo arcabouço que seja viável empregar num curto espaço de tempo. A eficiência desse processo pode ser vital em certas situações e irrelevante, a curto prazo, em muitas outras. E a partir daí podemos rastrear o verdadeiro problema. O preconceito sempre foi e será inerente à vida humana, assim como as limitações do conhecimento são cada vez mais colossais, à medida que esse conhecimento avança. Por isso, a problemática não está nas apressadas ideias pré-concebidas que fazemos do real e, sim, no enraizamento dessas conclusões necessariamente distorcidas e superficiais.
      Muitas vezes confunde-se o preconceito com o ato discriminatório, este, sim, intolerável e passível de erradicação. A discriminação, enquanto ação, não poderá materializar-se, caso seja precedida de um mínimo de reflexão. A tal ponderação e razão apontadas pelo Houaiss. Lembrar aquela estória de dois ouvidos e uma boca; contar até dez, até mil; respirar fundo e exercer essa fascinante habilidade denominada: pensar.

        Se formos penetrar mais fundo na dicotomia conhecimento\ignorância, será forçoso reconhecer a inexorabilidade da distorção, enquanto uma condição humana de enxergar a realidade. No entanto, ainda que as trevas estejam presentes a cada ponto de luz acendido, não podemos olvidar os efeitos dessa iluminação na nossa capacidade de ver melhor o mundo, de transitar nele e estruturá-lo mais satisfatoriamente. Nesse sentido, o foco do nosso combate deveria ser o comodismo, a passividade, a inflexibilidade diante do mundo, diante do novo. Reacendamos o dinamismo próprio do ser humano. Dínamo que é força, que é alma, que é vida! A curiosidade, a sede insaciável pelo conhecimento. Assim, estaremos sempre nos deslocando para longe dessa superfície preconceituosa, mas talvez nunca cheguemos ao fundo da “toca do coelho”.

domingo, 6 de setembro de 2015

O Imperativo da Sabotagem



Olá galerinha do venha a mim o vosso reino e seja feita essa nossa vontade assim, apenas na vossa terra,


     Tomando como exemplo, os processos de independência nas Américas, nomeadamente, Brasil e Estados Unidos, algo, no mínimo, curioso salta aos olhos. Existe por parte das respectivas metrópoles, Portugal e Inglaterra, um recrudescimento das leis referentes às suas colônias, no momento em que ideias autonomistas, pululam nesses espaços americanos, sejam as leis do Selo e do Chá da segunda metade do século XVIII, além do envio de tropas inglesas para as Treze Colônias, seja a tentativa por parte das Cortes portuguesas de anular o novo estatuto de Reino do Brasil, no início do século XIX.
    Essas atitudes metropolitanas parecem óbvias e, de certa forma, o são, uma vez que havia a vontade em manter a lucrativa colonização e não existia a possibilidade de admitir uma concorrência com as próprias colônias, muito menos uma inversão de papéis. No entanto, a Inglaterra, pioneira da industrialização, propagadora dos valores liberais, na esteira do iluminismo, assume uma posição de bastião do arcaísmo, quando o assunto diz respeito a sua colônia, com medidas protecionistas, monopolistas e autoritárias.
     Em Portugal, ocorreu situação semelhante. Após as invasões napoleônicas e sua consequente transferência (fuga) da família real para o Rio de Janeiro, os súditos da metrópole sentiram-se ultrajados por tornarem-se periferia do império e ansiaram pela reversão desse quadro. Embebida pelos valores liberais, a Revolução do Porto (1820) convocou as Cortes de Portugal que logo se transformaram Assembleia Constituinte, seguindo o exemplo recente da Espanha. E foi, exatamente, nessa Assembleia de cunho liberal, que os deputados lusitanos insistiram na reestruturação do exclusivo colonial entre outras medidas arcaizantes, sendo intransigentes com as propostas autonomistas dos delegados brasileiros.
     Apenas a título de reforço, a primeira Constituição francesa de 1791, em plena Revolução, proclamadora da igualdade civil, supressora dos privilégios nobiliárquicos e das ordens sociais, aquela que nacionalizou os bens da Igreja e aboliu a servidão, foi a mesma capaz de manter a escravidão nas suas colônias, sendo a França pré-revolucionária e absolutista um apoio fundamental para a Independência dos Estados Unidos. O governo da Convenção jacobina ousou remar na direção contrária, abolindo a escravidão colonial, porém sua duração foi curta. Contudo, essa mesmíssima Convenção instituiu o Terror, guilhotinou líderes populares, afastando o apoio dos sans-cullotes. Quantos jogos de interesses, quantas lutas internas e externas!...
      É interessante notar o grau acentuado de sectarismo nas diferentes sociedades, inclusive no interior delas. Nesses casos, sumariamente exemplificados, observam-se dois processos contrários, mas, aparentemente, vistos como complementares pelos seus protagonistas. As lutas pelas liberdades em vários âmbitos, incluindo o comercial, acompanham as lutas pela dominação, pela castração, pela possibilidade de exploração colonial, pelo imperialismo. Tudo isso ocorre sem o menor senso de empatia ou de “contraditoriedade” daqueles que encampam tais projetos. Seria como se existisse um pressuposto: a prosperidade alheia ameaça a minha prosperidade e, por isso, devo impedi-lo a todo custo, hegemonizando meus interesses acima dos deles.
   Esse pressuposto da escassez, da mesquinhez, orientou, notadamente, os Estados Unidos, após sua ascensão global. E assim eles fizeram aos outros países, justamente, aquilo que não queriam que a Inglaterra tivesse feito a eles: intervenção no próprio Brasil, no Panamá, Nicarágua, Chile, México, Vietnã, Iraque etc. Até o Brasil teve, também, seus ímpetos imperialistas. Não surpreende que as tão publicizadas ajudas internacionais, muitas vezes, não passam de maneiras maquiadas, a fim de criarem dependências, não importando mais o controle territorial direto. Será tão produtivo angariar tantos esforços contra nós mesmos¿ Vivemos em quantos planetas¿ Fazemos parte de quantas espécies¿

Espero que tenham curtido e até o próximo post!

Abraços!      

O Sistema da Dívida: Vídeo de utilidade pública!

https://www.youtube.com/watch?v=yUpVQu9WHyQ

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Ilumishima Ilumosaki



Olá galerinha Aliada e galerinha do Eixo e do desleixo,

      No dia 6 de agosto de 1945, ocorreu o coroamento das atrocidades iniciadas em 1939, talvez em 1914, ou, quem sabe, desde tempos imemoriais. A Guerra que encarnou a parte mais horrenda da noção de desrazão, pareceu devastar não somente territórios como o próprio ideário iluminista. O mesmo Iluminismo, o qual abrilhantou uma Europa setecentista, permeou revoluções, aflorou pensamentos liberais, democráticos e socialistas, terminou por explodir nos descaminhos dessa Guerra. O clímax do conhecimento científico aplicado da maneira mais baixa possível. Nesse ínterim, ordem e progresso foram duramente questionados, assim como os alardeados benefícios da tecnologia industrial.
    A teoria da relatividade geral (1915), que balançou os alicerces da Física, gradativamente, envolveu as ciências humanas, fosse alargando pontos de vista, fosse flertando com o niilismo. Todo o progresso relativizava-se e, para muitos, perdia o sentido. O conceito de práxis utilizado por Paulo Freire parece ser bastante pertinente nesse caso. A experiência reflete o pensamento humano, assim como este reflete a experiência. Ainda que muitas teorias sejam formuladas no interior alienante dos gabinetes, bibliotecas ou escritórios, as experiências cotidianas não deixam de testá-las, contestá-las, revisá-las ou subvertê-las. Nesse caso, a experiência traumática da Segunda Guerra, seguida de perto pela ferida ainda aberta da Primeira, promoveu a ascensão de ideias que consolidariam os pós-modernismos, no final do século XX.

      A crença na razão, na ciência como depositária da verdade e do progresso, advindo de ambas, foi seriamente afetada a partir desses anos beligerantes, recheados de insanidade, justamente, quando a ciência foi apropriada pelas nações imperialistas a fim de alcançar seus objetivos torpes. Mesmo assim, o Iluminismo continua a destilar-se nos nossos dias. Os cacos de seu pensamento universalista ainda possuem a chance de brilhar, caso aqueles que os recolham estejam dispostos à flexibilização. Afinal, intransigências de tipo positivista não cabem mais a essa humanidade pós-Guerra, pós-século XX, para a qual a ciência reserva um futuro tão extraordinário quanto incerto.


Espero que tenham curtido e até o próximo post!

Abraços!