sexta-feira, 14 de setembro de 2018

O Jesus histórico entre textos e contextos






Olá galerinha do reino dos céus. Vamos falar do homem de mais de 2000 anos...

     Mais de 2000 anos separam o pesquisador contemporâneo daquele que protagonizou uma ruptura de enormes proporções na história do chamado Ocidente. Uma ruptura na própria concepção de história onde predominava o eterno tempo cíclico, permitindo, junto à outros inúmeros influxos, o desenvolvimento futuro da disciplina História, tudo isso, claro, observado retrospectivamente, porque o cristianismo recém-nascido emergira como uma tendência quase insignificante do tronco judaico, composto por um pequeno grupo de pessoas “comuns” e anônimas envoltas nas densas brumas do tempo.
       A distância entre o historiador e seu objeto de estudo pode ser um fator benéfico para inalcançável e incontornável alvo da objetividade que sempre será maculado para uns e colorido para outros pelos primas caleidoscópicos da subjetividade. No entanto, ainda que o fazer historiográfico atual admita uma ampla gama de fontes e um alargamento da noção de documento é fato notável a escassez documental a medida que recuamos mais e mais no tempo. Essas areias desérticas da história são, por vezes, pontilhadas por alguns oásis esparsos, verdadeiros faróis do conhecimento antigo. Nesse caso específico, lidamos com poucos documentos de cunho explicitamente evangélico (não histórico ou biográfico no sentido preciso do termo) e de autoria cristã, por isso a dificuldade em enxergar outros primas do caleidoscópio, capazes de evitar os perigos da narrativa unilateral.
      Como se não bastassem as dificuldades apontadas acima, tudo torna-se mais complicado quando resolvemos abordar um tema por demais espinhoso, um tema capaz de mobilizar as paixões mais viscerais, seja dos adoradores do Cristo ou seja dos seus inúmeros detratores. Para além do plano da fé individual ou da ausência dela no sentido espiritual, nos deparamos com as feridas abertas deixadas pela separação formal e gradual entre a Religião e a Ciência ocidentais, efetivada durante o séc. XIX. Religião, representada nesse Ocidente pela toda poderosa Igreja Católica e seus famosos conflitos, principalmente na Idade Moderna envolvendo todos os pensadores que colocassem em xeque seus preciosos dogmas. A Ciência cientificista saiu vitoriosa da querela secular e caiu nas graças do povo (enquanto Hiroshima e Nagasaki ainda permaneciam de pé), contudo a Religião conseguiu preservar seu pedacinho do céu fora das garras da curiosidade científica. E como a mente humana trabalha através de variadas associações, então fica claro o tamanho da dificuldade para o historiador atual: religião, igreja católica, Jesus Cristo, inimigos da ciência, anti-científico, fé, espiritual, metafísica, Jesus histórico etc.
      Essa contextualização faz-se necessária para compreender os cuidados hercúleos tomados por Dominic Crossan a fim de acessar da melhor maneira possível, dentro dos parâmetros da disciplina História, o famigerado Jesus histórico. A necessidade de contextualização é reiterada repetidas vezes por Crossan em seu artigo:

      A separação e o estudo desconectado do contexto histórico e texto do evangelho, nos quais nenhum dele pode influenciar decisões a respeito do outro.
      O estudo do contexto antes do texto: o contexto histórico da Galiléia de Herodes Antipas na década de 20 do século I d.C. deveria ser estabelecido antes do estudo dos textos dos evangelhos cristãos.
       O estudo do contexto sem o texto: o conteúdo histórico deveria ser estabelecido separadamente de qualquer evangelho cristão. Na medida em que o evangelho cristão, a partir da sua natureza da sua função de Boa Nova, sempre envolve uma reinterpretação altamente criativa de uma dada tradição, os contextos dos anos 20 a 90 são progressivamente unidos (...)” [CROSSAN, John Dominic. Texto e contexto na metodologia dos estudos sobre o Jesus Histórico. In: CHEVITARESE, André; CORNELLI, Gabrielle; SLEVATICI, Monica (org.). Jesus de Nazaré: uma outra história. São Paulo: Annablume, 2006, pp. 165-166.]

      Para além da questão da importância do contexto de modo mais global, Crossan hierarquizou o processo de contextualização em três níveis distintos, do mais geral ao mais específico respectivamente: nível antropológico, histórico e arqueológico. Como citado acima, ele enfatiza a necessidade de estudar a fundo esses contextos antes de examinar os textos evangélicos, desse modo, evitaria olhar para os contextos a partir das lentes textuais, podendo o pesquisador com isso endossar inadvertidamente as narrativas evangélicas ou perder-se no emaranhado dos diferentes olhares. Isso não significa que o  autor desconsidere a relevância da interatividade entre texto e contexto, não apenas os contextos da época estudada como o próprio contexto formativo do pensamento do autor, o contexto presente. Em outras palavras e nas palavras dele, um diálogo constante.
      Outro cuidado de Crossan que, na realidade reflete muito mais uma opção declarada seria de privilegiar os documentos considerados mais antigos que supostamente estariam mais próximos dos testemunhos oculares da vida de Jesus. O autor não pressupõe que a antiguidade seja sinônimo de fidelidade maior aos fatos narrados, apenas aponta seu recorte no que se refere às fontes trabalhadas, frisando a vinculação da escolha ao relativo consenso da comunidade científica a respeito da autenticidade dessas fontes.
       A respeito das principais fontes elencadas para compreender o Jesus histórico, o autor adverte para inevitabilidade de outra escolha deliberada: as dependências, independências ou interdependências entre os evangelhos sinóticos e entre os outros textos do Novo Testamento utilizados, sem contar com os chamados textos veterotestamentários, os intertestamentários e os apócrifos ou gnósticos posteriores. Quem seria anterior a quem? Quem seria fonte de quem? Quem teria influenciado quem e/ou quais seriam as influências mútuas? Para tentar responder essas questões, a escolha de Crossan foi declarada, consciente da imprescindibilidade dessa escolha assim como de sua dose de arbitrariedade, visto que não goza de consenso absoluto entre os estudiosos do assunto. A arbitrariedade, no entanto, decorria da natureza das fontes e não da irresponsabilidade ou desonestidade intelectual do autor que, aliás, faz o possível para debela-la e persuadir seus colegas pesquisadores a partir dos seus profundos estudos de contextos e de exegese bíblica, recorrendo a linguística, a antropologia, a história e à arqueologia, por exemplo. Assim fica ilustrado o caráter interdisciplinar de sua metodologia.
         Crossan concorda com existência de uma fonte escrita Q, anterior aos evangelhos, produzida na época apostólica, mais ou menos contemporânea das epístolas paulinas que teria sido a fonte dos evangelhos posteriores, iniciando por Marcos. Mais que isso, ele infere a existência de uma fonte escrita mais antiga, uma espécie de proto-Didaquê, analisando semelhanças e diferenças entre determinados ditos que aparecem nos sinóticos, em Paulo e em Didaquê. Sem contar com a tradição oral anterior a esses escritos, mas que estaria refletida na diversidade de formas encontradas neles, quanto a construção das frases e quanto a ordem em que aparecem.
         O Jesus histórico seria o mesmo Jesus da fé? Do ponto de vista metodológico, mais importante que responder corretamente essa questão seria atentar para o perigo das concepções a priore, conclusões feitas antes da pesquisa que denotam uma atitude anticientífica e deformam seu objeto de estudo a imagem e semelhança de seu pseudo-pesquisador.  Vale lembrar do racha entre Ciência e Religião citado acima em que a fé foi relegada ao campo metafísico e por isso mesmo fora da área de interesse científico ou mesmo considerada inacessível à pesquisa científica, em outras palavras uma questão de fé simplesmente. Do mesmo modo Jesus, personagem central de umas das maiores religiões do planeta havia sido relegado ao campo da meta-história, com sua existência questionada ou considerada fora do campo de interesse da História. Uma questão de fé, diriam eles, porém muito mais uma questão de método e acima de tudo uma questão de paradigmas.